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31 de Julho de 2010
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Normas de Publicação 2010



Temas de Reumatologia Clínica
Doença óssea de Paget
Deise Guimarães Duarte
Médica estagiária e aluna do Curso de Especialização em Reumatologia do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo Francisco Morato de Oliveira (HSPE-FMO).
Mônica Valéria Siqueira Santana
Médica residente (R3) do Serviço de Reumatologia do HSPE-FMO.
Gertrudes Maria de Medeiros Nóbrega
Médica assistente do Serviço de Reumatologia e mestranda do Curso de Pós-graduação em Clínica Médica, do HSPE-FMO.
Elaine de Azevedo
Médica assistente e responsável pelo Ambulatório de Doenças Ósseas e Metabólicas do Serviço de Reumatologia do HSPE-FMO.

Unitermos: doença óssea de paget

Numeração de páginas na revista impressa: 82 à 85

Osteíte deformante ou doença de Paget do osso (DP) é uma desordem esquelética focal caracterizada por uma remodelação desordenada. O processo se inicia com o aumento da reabsorção óssea mediada por osteoclastos, seguido de um aumento compensatório na formação de osso novo resultando, então, em um mosaico desorganizado de osso cortical e trabecular nos sítios esqueléticos comprometidos. Esta alteração estrutural produz um osso maior em tamanho, menos compacto, mais vascularizado e mais suscetível a deformidades ou fraturas que o osso normal(1,2,5-7).

Reconhecida e descrita em detalhes por Sir James Paget, em 1877, é tipicamente encontrada em pessoas com mais de 40 anos (freqüência estimada em 3,3%), sendo ligeiramente mais comum no sexo masculino e em caucasóides. A maior parte dos pacientes com DP é assintomática e somente 5% dos casos apresentam dor no sítio pagético. Sinais clínicos e sintomas podem variar na dependência do número e localização dos sítios envolvidos, assim como da rapidez da remodelação óssea anormal(1-9).

ETIOLOGIA

A etiologia da DP permanece desconhecida. Dados de diferentes áreas de investigação estabelecem algumas hipóteses. Primeiro, a doença parece ter um significante componente patogenético. E, 15% a 30% dos pacientes têm história familiar positiva para a DP e análises genéticas de famílias acometidas estabelecem um padrão autossômico dominante de herança. Há dados indicando que a DP pode estar ligada ao HLA com uma freqüência aumentada do antígeno HLA-DQW 1 nas pessoas acometidas com ou sem história familiar. Estudos de agregação familiar sugerem que o risco que um parente de primeiro grau de um paciente pagético tem de desenvolver a doença é sete vezes maior que o esperado para aqueles que não têm familiares afetados(5,7).

Maior freqüência da DP em alguns grupos étnicos e áreas geográficas também tem sido descrita. Observações clínicas indicam que a doença é mais comum na Europa, América do Norte, Austrália e Nova Zelândia; e mais rara na Ásia, particularmente na China, Índia e Malásia(5-7).

Além dos dados geográficos, étnicos e genéticos há estudos correlacionando as alterações ósseas com uma possível etiologia viral. Acredita-se que as alterações na remodelação óssea ocorram como resultado de uma infecção viral em osteoclastos do osso pagético. Inclusões semelhantes a nucleocapsídeos virais foram descritas no núcleo e citoplasma de osteoclastos de sítios acometidos, mas não em regiões livres da doença ou em indivíduos sadios. As partículas virais são semelhantes às da família paramixovírus, porém há dúvidas se trata-se do vírus sincicial respiratório, sarampo, alguma mutação de um ou mais desses vírus ou, ainda, outro paramixovírus. Demonstrou-se que esta família de vírus promove a fusão das células infectadas e a formação de células gigantes multinucleadas(2,8-11).

Uma teoria mais recente tenta "unificar" estes achados prévios e sugere que osteoclastos hiperativos funcionalmente são o produto de uma fusão de células (osteoclastos e células progenitoras de osteoclastos) mediada por uma infecção viral e que migram para sítios pagéticos. Muitos investigadores acreditam que uma infecção viral durante a infância, num indivíduo geneticamente suscetível, predispõe a uma lesão no osteoclasto que deverá manifestar-se durante a vida adulta como uma lesão pagética(8-11).

PATOLOGIA

Achados histopatológicos
O evento inicial da DP é o aumento da reabsorção óssea em associação com a presença de osteoclastos anormais nos sítios afetados. Os osteoclastos pagéticos são mais numerosos e contêm mais núcleos (mais de 100 núcleos por célula) que os normais. Em resposta ao aumento na reabsorção óssea, numerosos osteoblastos são recrutados para os sítios pagéticos em que ocorre uma rápida neoformação óssea(5,6,8,12,13).
Nas fases iniciais da DP a reabsorção óssea acelerada domina, traduzindo-se por alterações radiográficas sugestivas de redução da densidade óssea, lesões líticas ou osteoporose circunscrita vista no crânio. A análise anatomopatológica evidencia numerosos osteoclastos estruturalmente anormais(5,6).

Seguindo esta combinação de aumento da reabsorção há uma nova formação óssea acelerada produzida por grande número de osteoblastos presentes nestes sítios. As novas fibras de colágeno são depositadas de forma irregular criando um osso anormal. O produto final deste processo desordenado é também chamado de mosaico, refletindo a presença de áreas de osso espessado entremeadas por regiões onde há predomínio de reabsorção. A medula óssea torna-se infiltrada por tecido conectivo fibroso e por um maior número de vasos sangüíneos, explicando o estado hipervascular do osso(5-7,9,11).

A matriz óssea nos sítios pagéticos é mineralizada normalmente. Tipicamente todas as fases do processo pagético podem ser vistas simultaneamente em diferentes locais.

Parâmetros bioquímicos
Aumento na excreção urinária dos marcadores bioquímicos que refletem um estado hiper-reabsortivo (hidroxiprolina, por exemplo) pode ser visto ao lado da elevação dos níveis de fosfatase alcalina, a qual demonstra aumento da atividade osteoblástica. Pela perspectiva clínica, o grau de elevação destes dois marcadores habitualmente oferece uma aproximação da extensão e gravidade das lesões pagéticas. Assim, lesões monostóticas (exceto o crânio) podem apresentar valores bioquímicos menores que as poliostóticas.

Além de úteis na comprovação do diagnóstico, as dosagens seriadas da fosfatase alcalina e hidroxiprolina urinária ou de outros marcadores da reabsorção, como os interligadores do colágeno tipo 1 (piridinolina e deoxipiridinolina) e os fragmentos amino (NTx) e carboxi (CTx) do colágeno tipo 1, são utilizadas na monitorização dos efeitos do tratamento.

Os níveis séricos de cálcio são usualmente normais nos pacientes com DP. Ocasionalmente pode haver hiperparatiroidismo secundário (15%-20% dos casos) mesmo com cálcio sérico normal, especialmente quando há níveis muito elevados de fosfatase alcalina. Também são descritas elevações de ácido úrico e citrato, mas não há como correlacionar gota com tal condição. Hipercalciúria secundária ao estado hiper-reabsortivo também pode ser encontrada(14).

ACHADOS CLÍNICOS

O diagnóstico clínico da DP é subestimado na grande maioria dos pacientes. A condição é, em geral, assintomática (cerca de 70% dos casos) sendo freqüentemente um achado ocasional na investigação radiológica para outras patologias. É importante enfatizar a natureza localizada da DP. Ela pode ser monostótica - afetando apenas um osso ou uma parte deste - ou poliostótica - envolvendo dois ou mais ossos. Os sítios da doença são freqüentemente assimétricos. Embora possa ocorrer progressão da doença, o súbito aparecimento de novas áreas afetadas após o diagnóstico é raro(15,16).

____________________________________________________
Tabela 1 - Características clínicas e complicações da DP

Comuns

Dor óssea - pagética ou articular
Fratura - ossos longos, corpos vertebrais
Neurológica- surdez
Deformidades e alargamento dos ossos

Incomuns

Síndromes neurológicas raquimedulares
Hipercalciúria - por imobilização ou fratura
Sangramento vascular - fratura ou cirurgia
Calcificação extra-esquelética (aórtica)
Degeneração maligna

Raras

Doença cardiovascular
Lesões de nervos cranianos (exceto VIII)
Lesões do tronco cerebral e cerebelo
Hipercalcemia da imobilização
Hematopoiese extramedular
Hematoma epidural

Importância incerta

Gota
Pseudogota
Estrias angióides
Hiperparatiroidismo
Nefrolitíase
____________________________________________________

Os sítios mais comuns de envolvimento são: pélvis, fêmur, vértebras, crânio e tíbia. Os ossos das extremidades superiores, como a clavícula, escápula, costelas e ossos da face, bem como mãos e pés,são raramente envolvidos(1).

O aparecimento de sintomas ou complicações da DP é dependente das áreas comprometidas e das interrelações entre os ossos afetados e estruturas adjacentes, além da extensão da atividade metabólica.



Figura 2

Sinais e sintomas

A dor óssea no sítio de envolvimento pagético,seja em repouso, seja em movimento, é provavelmente o sintoma mais comum (Tabela 1). A causa deste sintoma é incerta, mas pode estar relacionada com a presença de microfraturas e uma aumentada vascularização local (que pode ser percebida como elevação da temperatura na região)(15).

Arqueamento de tíbia e fêmur pode causar dor por vários motivos. Um membro arqueado é tipicamente encurtado, resultando em anormalidades da marcha e sobrecarga mecânica. Osteoartrose secundária também é vista nas articulações adjacentes ao osso pagético (quadril, joelho e tornozelo)(15).

Lombalgia e dores inespecíficas na coluna vertebral provavelmente são secundárias às alterações degenerativas que acompanham as lesões da DP, às fraturas vertebrais por compressão ou à estenose de canal vertebral associadas com envolvimento de raízes nervosas, produzindo dor radicular com ou sem envolvimento motor secundário. Quando a DP afeta a coluna dorsal pode haver sintomatologia por envolvimento medular surgindo síndromes compressivas motoras e/ou sensoriais(17-20).

A DP do crânio pode ser assintomática, mas cerca de um terço dos pacientes pode referir aumento do tamanho do crânio com ou sem deformidade frontal, cefaléia ou sensação de peso na cabeça. Surdez e comprometimento de pares cranianos (II, VI, VII etc.) são descritos. O envolvimento extenso do crânio, especialmente da base, produz platibasia com o desenvolvimento de invaginação basilar. O acometimento pagético de ossos faciais pode causar deformidade facial, problemas dentários, estreitamento de vias aéreas e, conseqüentemente, alterações na fonação (Figuras 1e 2)(1,14,17-24).

Fraturas de ossos pagéticos são complicações raras e sérias. Podem ser traumáticas ou patológicas e habitualmente envolvem ossos longos com áreas ativas da doença. A vascularização aumentada pode levar a sangramento importante na presença de fraturas devido a traumas(17). Estas também podem acontecer em áreas de degeneração maligna da DP (uma complicação rara da doença). Mais comum são as pequenas fraturas tipo fissuras ao longo de ossos longos comprometidos.

A degeneração neoplásica do osso pagético é um evento raro, ocorrendo com uma incidência de menos de 1%. Tipicamente as lesões são osteolíticas e têm prognóstico ruim. A maioria dos tumores são classificados como sarcomas osteogênicos,embora fibrossarcomas e condrossarcomas possam ser diagnosticados(1,4,14,25).

DIAGNÓSTICO

Quando há suspeita do diagnóstico de DP a avaliação deve incluir uma cuidadosa história e exame clínico, procurando-se evidências de envolvimento primário ou secundário da doença (Tabela 1). A possibilidade de uma história familiar positiva também deve ser lembrada.


Figura 3

O exame físico pode revelar a presença de deformidades no crânio, coluna, pelve e extremidades, áreas com aumento da temperatura e sensibilidade e, também, comprometimento articular.
Testes laboratoriais devem incluir a dosagem da fosfatase alcalina e algum marcador de reabsorção óssea conforme já descrito. Estudos radiográficos complementam a investigação inicial para determinar os sítios envolvidos.

A cintilografia óssea é o método mais sensível para identificar as lesões. Pode ocorrer, entretanto, captação em áreas não específicas, refletindo regiões com comprometimento degenerativo ou metastático. Radiografias simples dos ossos afetados promovem uma informação mais específica já que as alterações vistas são praticamente patognomônicas da doença (alargamento ou expansão do osso, espessamento trabecular, mosaico de lesões líticas e escleróticas). As radiografias também fornecem informações sobre o envolvimento articular adjacente aos sítios pagéticos, identifica fraturas por fissuras e a presença ou ausência de deformidades (Figura 3).

Habitualmente o estudo anatomopatológico fica reservado apenas para casos onde há dúvidas quanto ao possível envolvimento neoplásico (primário ou secundário) da lesão suspeita.




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