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09 de Setembro de 2010
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Normas de Publicação 2010



Artigo Original
Prescrição leiga de medicamentos pelas farmácias
Lay prescription of medications for the pharmacies


Rosane Dias Costa
Ana Maria Duarte Dias Costa
Rodrigo Pascoal Azevedo
Marina Dias Costa
Tobias Engel Ayer Botrel
Faculdade de Ciências Médicas, Instituto de Odontologia e Ciências da Saúde Universidade de Alfenas
José Ronaldo Vieira da Costa
Escola de Farmácia e Odontologia de Alfenas.
Endereço para correspondência: Rosane Dias Costa - Rua Presidente Artur Bernardes, 655 - CEP - 37130-000 - Alfenas - Minas Gerais - MG - Tel. (35) 3291-2375 - E-mail: rosanedc@bol.com.br

Unitermos: automedicação, farmácias, prescrição leiga.
Unterms: self-medication, pharmacies, lay prescription.

Numeração de páginas na revista impressa: 82 à 84

Introdução


A prescrição leiga de medicamentos, caracterizada como automedicação, constitui-se num problema de saúde pública que assola a sociedade mal preparada para o uso de fármacos, levando a verdadeiras catástrofes.
Segundo Lefrève(10), a saúde imediata pode ser buscada através de medicamentos, pois estes são apenas mercadorias-símbolos passíveis de serem oferecidas ao consumo. A automedicação surge assim, como uma prática de cuidados cada vez mais independente do sistema médico(1,8).

A falta de recursos financeiros, característica de grande parte da população do terceiro mundo, e o precário acesso aos serviços de saúde, acabam levando os brasileiros a recorrerem às farmácias, onde expõem seus males a balconistas, na maioria das vezes despreparados e leigos, e também interessados na comissão que a indústria de medicamentos lhes proporciona. Desta forma, torna-se mais prático e econômico comprar um medicamento do qual já se ouviu falar e que serve para curar esta ou aquela doença(13), gerando com isso o uso irracional dos medicamentos.

Considerando a automedicação como necessidade, particularmente em países pobres, a Organização Mundial de Saúde (OMS) publicou diretrizes para avaliação dos medicamentos que poderiam ser empregadas em automedicação(12). Segundo esse informe, tais medicamentos devem ser eficazes, confiáveis, seguros e de emprego fácil e cômodo.

Como nenhum fármaco é totalmente inócuo ao organismo, a incidência de efeitos indesejáveis aumenta a cada dia, levando a iatrogenia medicamentosa e mascaramento de doenças evolutivas, causa de elevado número de hospitalizações(9). Certamente o risco da automedicação está correlacionado com o grau de instrução e informação dos usuários sobre medicamento, bem como com a acessibilidade dos mesmos ao sistema de saúde(5).

Objetivo

Considerando a farmácia como porta de entrada para o Sistema de Saúde para pessoas das mais diversas condições sociais nos centros urbanos maiores e menores, o presente estudo visou investigar a prática da prescrição leiga de medicamentos pelas farmácias e a porcentagem de indicação de consulta médica. Foi também verificada a presença do farmacêutico responsável no estabelecimento.

Métodos

A pesquisa foi realizada na cidade de Alfenas, localizada no Sul de Minas Gerais, na micro-região de Furnas. A cidade é centro de referência estadual em Saúde e Educação. O município possui população de 66.910 habitantes e 55 estabelecimentos farmacêuticos. (dados fornecidos pelo IBGE/ Alfenas - 2000). Para o presente estudo foram visitados 50 estabelecimentos farmacêuticos (foram excluídos os estabelecimentos hospitalares e farmácias-escola), por um grupo de quatro alunos de medicina da Universidade de Alfenas, devidamente treinados e calibrados para terem a mesma conduta nas diferentes farmácias. Todas as visitas foram feitas nos meses de agosto, setembro e outubro de 2000. Cada aluno ao chegar à farmácia verificava se o farmacêutico responsável estava presente no estabelecimento solicitando o atendimento pelo mesmo ou por seu substituto no caso de sua ausência. Após este procedimento, foi solicitado ao mesmo tratamento para um quadro simulado de infecção de garganta com gravidade avançada. Quando atendido, pedia-se orientação do tempo de tratamento, doses, intervalo entre as doses do ou dos fármacos indicados. Os dados obtidos foram registrados em fichas planejadas para esta pesquisa, para mensuração das variáveis enfocadas: indicação de fármacos; tipo de fármacos indicados; quem indicou: farmacêutico ou balconista e indicação de busca de auxílio médico.

Resultados

Do total dos estabelecimentos visitados, 64% tinham a presença do farmacêutico no momento da "consulta" e 36% não. 84,8% dos estabelecimentos indicaram o tratamento requerido e apenas 15,2% indicaram busca de ajuda médica. 54% das indicações foram de antibiótico, 38% de antibiótico e antiinflamatório e 8% somente de antiinflamatório. De todas as prescrições, apenas 14% estavam totalmente corretas.

Discussão e conclusão

Uma das vias que contribuem nitidamente para a automedicação é o balcão das farmácias. Embora possam ser constatadas algumas mudanças de postura, ainda é possível encontrar muitas farmácias onde medicamentos são recomendados sem orientação profissional adequada.

Nosso trabalho constatou alto índice de indicações de fármacos para tratamentos requeridos, feitas na maioria das situações por vendedores não habilitados para tal, fato também observado em diferentes pesquisas(2,3,5,4,6,7,13).

Os presentes dados apóiam a hipótese de ingênua e excessiva confiança da sociedade na figura do farmacêutico como conhecedor da ação dos produtos farmacêuticos para qualquer tipo de transtornos por mais graves que sejam, desconhecendo a importância de um diagnóstico da doença com base em conhecimentos alicerçados cientificamente e na maioria das vezes de competência exclusiva do médico.

Segundo Vilarino et al.(11), não se pode, porém, condenar o ato de automedicação porque seria socioeconomicamente inviável o atendimento por um médico para a solução de todos os sintomas de uma população, sendo portanto necessárias informações científicas sobre os medicamentos de venda livre, sem estímulo ao consumo desenfreado ou ao mito de cura milagrosa, ao mesmo tempo que seja incentivada a procura do profissional médico, relevando os pontos positivos que uma consulta médica pode ter em relação à automedicação.

Apesar da determinação legal quanto à presença obrigatória do profissional farmacêutico nas farmácias durante todo horário de funcionamento (Decreto Federal nº 793 de 05/04/1973), em 36% dos estabelecimentos visitados o mesmo não estava presente no momento da visita, fato também já observado por Barros(2), 1997. Interessante observar que todas as indicações de busca ao atendimento médico foram feitas pelo profissional farmacêutico e não pelo atendente, o que não deixa de ser um fato positivo nos dias atuais. Isto leva a supor que a presença do farmacêutico no estabelecimento poderia contribuir favoravelmente para a redução da prescrição por balconistas inabilitados para executar tal tarefa.

Também chamou a atenção no presente trabalho a prescrição inadvertida de antibióticos, o que certamente constitui um grave problema, ao se considerar, além dos efeitos adversos, a possibilidade de infecções oportunistas e resistência bacteriana, fato hoje que tem merecido a atenção de autoridades sanitárias, instituições médicas e até da Organização Mundial de Saúde.

Nossos dados sugerem que a automedicação pelas farmácias reflete um problema de Saúde Pública, partindo do pressuposto de que as mesmas ocupam um lugar privilegiado no sistema de saúde, particularmente no caso brasileiro, devido às condições precárias das redes de serviços de atenção primária, e reforçam a necessidade de informar a população sobre o uso adequado de medicamentos.




Bibliografia
1. Arrais, P.S. D; Coelho, H.L.L; Batista, M.C.D.S; Carvalho, M.L; Righi, E; Arnau, J.M. Perfil da automedicação no Brasil., Rev. Saúde Pública, 31 (10): 71-7,1997
2. Barros, J.A.C. A atuação dos balconistas de farmácia - Ajudando a promover o uso racional de medicamentos? Jornal Brasileiro de Medicina, vol 73, n 2, 1997
3. Benfica, F.S.et al. Avaliação do controle de venda de medicamentos de uma amostra de farmácias em Porto Alegre - RS.; Rev AMRIGS, 27: 496-9, 1983
4. Bock, L & Tarantino, M. Atração perigosa.; Revista ISTO É, n. 1671, p.80 -5, 2001
5. Campos, J. M et al. Prescrição leiga de medicamentos por balconistas de 72 farmácias de Belo Horizonte/MG em maio de 1983.; J. Pediatr, 59: 307-12, 1985
6. Carlini, E.A & Masur, J. Venda de medicamentos sem receita médica nas farmácias de São Paulo.; Rev. Assoc. Méd. Bras, 32: 75-8, 1986
7. Coelho, H.L.L. et al. Misoprostol: the experience of womem in Fortaleza.; Lancet, 338: 247, 1991
8. Dupuy, J. P. A invasão farmacêutica.; Rio de Janeiro: Edições Graal Ltda, 1980, 216 p.
9. Garrafa, V. Contra o monopólio da saúde: temas para debates. Rio de Janeiro: Ed Achiane, 1983, 245p.
10. Lefrève, F. A oferta e a procura de saúde imediata através do medicamento: proposta de um campo de pesquisa.; Rev. Saúde Pública, v.21, n.1, p.64-67, 1987
11. Vilarino, J. f; Soares, I.C; Silveira, C. M; Rodel, A. P; Bortoli, R; Lemos, R.R. Perfil da automedicação no Sul do Brasil.; Rev. de Saúde Pública, v.32, n.1, 1998.
12. World Health Organization. Guindelines for the medical assessment of drugs for use in self-medication. Copenhagen, 1986
13. Zanetti, H. H. V. Automedicação: um problema social.; Alfenas, MG., Universidade de Alfenas - Unifenas, 1997. 76 p. (Dissertação de Mestrado).